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Neutrófilos e Duffy nulo: novos intervalos normais para adultos e crianças

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Tubo de sangue e hemograma com contagem de glóbulos brancos, a ilustrar os novos intervalos de neutrófilos no Duffy nulo

⚕️ Este artigo tem fins exclusivamente informativos e não substitui o aconselhamento médico. Consulte sempre o seu médico para interpretar os seus resultados.

Alguma vez uma análise ao sangue assinalou os seus neutrófilos ou glóbulos brancos como baixos, apesar de se sentir perfeitamente bem? Para milhões de pessoas nos Estados Unidos, a explicação é uma característica hereditária inofensiva chamada Duffy nulo. A 5 de novembro de 2026, a revista Blood Advances, da American Society of Hematology (ASH), publicou os primeiros intervalos de referência Duffy nulo para crianças, juntamente com uma ampla verificação dos intervalos para adultos. Eis o que o estudo concluiu, o que significa para a leitura do seu hemograma completo e que perguntas fazer ao seu médico.

O que significa Duffy nulo?

O Duffy é um sistema de grupos sanguíneos, como o ABO ou o Rh, embora muito menos conhecido. Refere-se a uma proteína presente na superfície dos glóbulos vermelhos. Nas pessoas Duffy nulo, cujo fenótipo se escreve Fy(a-b-), uma pequena alteração no gene ACKR1 impede que essa proteína surja nos glóbulos vermelhos. A variante é muito frequente em pessoas de ascendência africana e protege contra um tipo de malária. Os investigadores estimam que cerca de 10% da população dos Estados Unidos seja Duffy nulo.

O efeito mais visível desta característica no laboratório é uma contagem mais baixa de neutrófilos em circulação no sangue, sem mais infeções. Um grande estudo genético em três biobancos norte-americanos, incluindo o All of Us e o Million Veteran Program, verificou que o estatuto Duffy nulo estava sistematicamente associado apenas a contagens mais baixas de glóbulos brancos, e não a qualquer doença. Os especialistas chamam hoje a este padrão contagem de neutrófilos associada ao Duffy nulo, ou DANC na sigla inglesa, em vez do antigo termo "neutropenia étnica benigna".

O que o novo estudo concluiu

Investigadores de 23 centros norte-americanos, liderados pela hematologista Lauren Merz e colegas, incluíram 1412 pessoas saudáveis com estatuto Duffy nulo confirmado, desde os 6 meses de idade até à idade adulta. Seguindo as normas laboratoriais habituais, calcularam os intervalos em que se situam normalmente a contagem absoluta de neutrófilos (CAN) e a contagem de glóbulos brancos (leucócitos) destas pessoas.

Faixa etáriaCAN (×10⁹/L)Leucócitos (×10⁹/L)
6 meses a 2 anos0,53 a 4,504,4 a 12,6
3 a 6 anos0,78 a 4,673,8 a 10,8
7 a 12 anos0,87 a 5,342,9 a 10,1
13 a 17 anos0,90 a 4,893,1 a 9,2
Adultos (18 anos ou mais)1,03 a 7,303,0 a 10,7

Intervalos propostos por Merz e colegas (Blood Advances, 2026) para pessoas saudáveis Duffy nulo. Em muitos boletins de análises norte-americanos, 1,03 ×10⁹/L surge como 1030 células por microlitro ou 1,03 K/µL. Estes intervalos não substituem os intervalos do seu próprio laboratório e não se aplicam a pessoas que não são Duffy nulo.

Pontos-chave:

  • Um em cada quatro adultos saudáveis Duffy nulo tinha uma CAN inferior a 2,0, e entre um quarto e metade das crianças, consoante a idade, estava abaixo de 1,5, o limiar habitual de neutropenia.
  • Os resultados mantiveram-se independentemente do analisador hematológico, do tipo de unidade de saúde ou da forma como a amostra foi colhida.
  • São os primeiros intervalos Duffy nulo publicados para crianças; ainda não existem dados para bebés com menos de 6 meses.

Um artigo complementar do mesmo grupo propõe um roteiro para hospitais e laboratórios: testar o estatuto Duffy, registá-lo no processo clínico, atualizar o software do laboratório e informar profissionais de saúde e doentes.

Porque é importante: menos exames desnecessários

Quando se usam os intervalos habituais, uma pessoa saudável Duffy nulo pode ser classificada como neutropénica. Segundo a ASH e a investigação publicada, essa classificação errada pode levar a análises repetidas, referenciações e até biópsias de medula óssea, além de tratamentos adiados ou reduzidos e exclusão de ensaios clínicos. Uma análise de ensaios de fase 3 sobre os cinco cancros mais frequentes nos Estados Unidos e no Reino Unido concluiu que cerca de três em cada quatro excluíam doentes cuja CAN era normal para uma pessoa Duffy nulo, e que mais de metade dos esquemas padrão de quimioterapia previam ajustes de dose nesses valores.

O problema não se limita aos Estados Unidos. Um estudo de 2026 publicado na Blood, com participantes da Namíbia, Arábia Saudita, Reino Unido e Estados Unidos, encontrou intervalos Duffy nulo muito semelhantes entre países. Os intervalos dos laboratórios locais classificaram erradamente como neutropénicas cerca de um quarto a metade destas pessoas saudáveis e, entre os participantes Duffy nulo, a raça não alterou os resultados. Por outras palavras, é o grupo sanguíneo que explica a contagem mais baixa, e não a raça em si, razão pela qual os especialistas recomendam fazer o teste em vez de presumir.

O que o estudo não diz

  • Uma contagem baixa nem sempre se deve ao Duffy nulo. Uma CAN baixa recente ou muito baixa, ou acompanhada de infeções, aftas, anemia ou plaquetas baixas, continua a exigir uma avaliação completa.
  • A ascendência, por si só, não confirma a característica; só uma análise ao sangue do sistema Duffy o pode fazer.
  • Os intervalos descrevem pessoas saudáveis. Não definem os limiares que a sua equipa de oncologia utiliza durante a quimioterapia.

Avanços recentes

A investigação sobre este tema avançou depressa em três anos. Em 2023, um estudo em cuidados de saúde primários verificou que dois em cada três adultos negros testados eram Duffy nulo e tinham contagens de neutrófilos claramente mais baixas, e os autores pediram intervalos próprios. Em 2024, investigadores mostraram com que frequência os ensaios oncológicos excluíam estes doentes. Em 2025, um grande estudo genético confirmou que a característica não implica risco de doença e que também existe em pessoas de ascendência do Médio Oriente, hispânica ou mista. Em 2026, um estudo multinacional e os dois novos artigos da Blood Advances trouxeram intervalos para adultos e, pela primeira vez, para crianças. O que isto significa para si: uma contagem de neutrófilos ligeiramente baixa, estável e sem sintomas pode ser perfeitamente normal se for Duffy nulo, e uma simples análise ao sangue pode dizer-lhe se é o caso.

Que análises permitem vigiar ou detetar esta situação?

  • Hemograma completo com fórmula leucocitária: conta glóbulos brancos, neutrófilos, glóbulos vermelhos e plaquetas. Uma contagem baixa de neutrófilos com glóbulos vermelhos e plaquetas normais é o padrão típico da DANC.
  • Hemogramas repetidos ao longo do tempo: uma contagem que se mantém estável durante meses, sem sintomas, é tranquilizadora.
  • Fenotipagem Duffy dos glóbulos vermelhos: uma análise ao sangue que procura os antigénios Fy(a) e Fy(b), já utilizada nos serviços de sangue. Quando ambos estão ausentes, a pessoa é Duffy nulo. Um teste genético da variante rs2814778 é outra opção.
  • Outros exames que o seu médico pode pedir se o quadro não for típico: revisão da medicação, testes virais, marcadores autoimunes ou referenciação para hematologia.

Para conhecer outras causas, consulte o nosso guia sobre neutrófilos absolutos baixos e a nossa visão geral da contagem de glóbulos brancos.

Quando consultar um médico

  • De imediato, ou ligue 112, se tiver febre e uma contagem de neutrófilos sabidamente baixa, sobretudo durante um tratamento oncológico.
  • Rapidamente, se a descida for recente ou muito acentuada (abaixo de 0,5 ×10⁹/L), ou se vier acompanhada de anemia ou plaquetas baixas.
  • Se tiver infeções frequentes, aftas recorrentes ou sangramento das gengivas.
  • Se várias análises ao sangue tiverem mostrado neutrófilos baixos: pergunte se faz sentido o teste Duffy e se o resultado pode ser registado no seu processo clínico.

Glossário

  • Neutrófilos: os glóbulos brancos mais abundantes, a primeira linha de defesa do organismo contra as bactérias.
  • Contagem absoluta de neutrófilos (CAN): o número de neutrófilos num determinado volume de sangue.
  • Neutropenia: uma CAN abaixo do limite inferior do laboratório, geralmente 1,5 ×10⁹/L nos adultos.
  • Duffy nulo, Fy(a-b-): ausência do antigénio Duffy nos glóbulos vermelhos, uma característica hereditária inofensiva.
  • DANC: contagem de neutrófilos associada ao Duffy nulo, o nome atual das contagens mais baixas, mas saudáveis, desta característica.
  • Intervalo de referência: o intervalo que contém os resultados de 95% das pessoas saudáveis de uma dada população.
  • Fenotipagem: uma análise laboratorial que identifica que antigénios de grupo sanguíneo estão presentes nos glóbulos vermelhos.

Perguntas frequentes

A contagem de neutrófilos associada ao Duffy nulo é perigosa?

Não. A investigação mostra que não aumenta o risco de infeção nem de qualquer doença. Só importa porque pode ser confundida com uma verdadeira neutropenia e levar a exames desnecessários.

Como posso saber se sou Duffy nulo?

Através de uma análise ao sangue que procura os antigénios Duffy nos seus glóbulos vermelhos, ou de um teste genético. O seu médico pode pedi-la se os seus neutrófilos estiverem repetidamente baixos sem outra explicação.

O meu boletim de análises vai passar a usar os novos intervalos?

Não automaticamente. Cada laboratório define os seus próprios intervalos, e adotar intervalos Duffy nulo exige conhecer o seu estatuto Duffy. A ASH e os autores do estudo estão a incentivar hospitais e laboratórios a fazer essa mudança.

O meu filho tem neutrófilos baixos. Será Duffy nulo?

Não necessariamente. Nas crianças, as infeções virais causam muitas vezes uma descida temporária. Repetir a análise e, se necessário, a opinião de um especialista permitem distinguir as situações.

O estatuto Duffy é importante na quimioterapia?

Pode ser, porque muitos esquemas ajustam as doses em função da contagem de neutrófilos. Informe a sua equipa de oncologia do seu estatuto Duffy; é ela que decide que limiares se aplicam.

Fontes

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    Co-fundador e CEO da AI DiagMe · Editor médico sénior · Licenciado pela HEC Paris

    Julien Priour é editor médico sénior na AI DiagMe, onde supervisiona a linha editorial e o processo de verificação de factos. Diplomado pela HEC Paris, conta com 3 anos de experiência em edição na área da saúde e recebeu formação em redação e publicação científica pelo Instituto Francês de Investigação para o Desenvolvimento (IRD, FUN-MOOC, 2026). Assegura que cada artigo respeita as recomendações médicas em vigor e é revisto e validado por um médico do comité científico e de ética. Define os padrões de seleção de fontes (HAS, Ameli, INSERM…) e de revisão aplicados a todo o site.

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  • Dr. Claude Tchonko

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    O Dr. Claude Tchonko é hematologista, exerce desde 2013 e trabalha atualmente na Clinique Mas de Rochet (Castelnau-le-Lez, França). Com um percurso internacional, é especialista no tratamento das hemopatias malignas (leucemias, linfomas, mielomas), com particular experiência em autotransplante de células estaminais, terapia CAR-T e otimização dos percursos de cuidados em onco-hematologia.

    Autor de uma obra de referência, «As hemopatias linfoides no Mali», alia a prática clínica a uma participação ativa em projetos de desenvolvimento de soluções tecnológicas na área da saúde.

    Titular de um Doutoramento de Estado em Medicina (Faculdade de Medicina de Bamako, 2006), completou a sua formação com um Certificado de Estudos Especializados em Hematologia Bioclínica (Abidjan-Cocody, 2010) e vários diplomas universitários: um DFMS em Hematologia e um diploma interuniversitário (DIU) em Citogenética Onco-hematológica (Grenoble), bem como um diploma universitário (DU) sobre a síndrome drepanocítica major (UPEC).

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